1. Brasil

Nota de Filipe G. Martins

7 de julho de 2017 - 22:43:17

Quando o Professor Olavo de Carvalho começou a advertir sobre o quão arriscado era apostar em qualquer tática que não estivesse integrada a uma visão estratégica mais ampla e que, ademais, devolvesse o protagonismo e a hegemonia da ação política ao estamento burocrático, muita gente torceu o nariz e disse que ele não sabia do que estava falando.

Muitos, que até hoje parecem não saber distinguir uma estratégia das táticas que a compõem, chegaram até mesmo a ver nele um inimigo do impeachment e dos movimentos de rua. Diante de tal obtusidade, de nada adiantava argumentar que o Professor não se opunha ao impeachment enquanto tal e que a finalidade de suas advertências era simplesmente a de alertar contra o fetichismo dos meios — impeachment, cassação das chapas, etc. — adotado pelos que defendiam alguma dessas táticas como um fim em si mesmo e não como uma dentre tantas ferramentas possíveis (e mais ou menos eficazes) para desalojar os petistas da camada mais visível do poder.

Por serem partidários de uma das táticas possíveis, eram incapazes de ver no Professor algo além de um adepto das táticas alternativas. Os defensores da intervenção militar o acusavam de ser adepto do impeachment. Os defensores do impeachment o acusavam de ser adepto da intervenção militar. E assim por diante… Não imaginavam que pudesse haver algo como uma análise objetiva dos fatos. Mais ou menos o mesmo erro que, na conjuntura atual, cometem aqueles que aderiram a uma das facções do estamento burocrático e, por isso, vêem todos os que não aderem a essa mesma facção — no mais das vezes, por rejeitarem o establishment in toto — como adeptos das facções rivais. É dessa cegueira que nascem termos como “direita janotista” e outras estultices que vocês já devem ter visto circulando por aí.

Pois bem. Passados mais de dois anos desde que o Professor começou a nos advertir, a decisão tomada, na noite de ontem, pelos ministros do TSE legitimou a ilegitíssima eleição de Dilma Roussef e deixou a todos com um sentimento de indignação impotente, forçando alguns até a, vejam só, comemorar um resultado que, embora tenha legitimado as práticas eleitorais mais execráveis, não coloca em risco as minguadas e formalistas reformas econômicas, que, mesmo sendo acertadas, de nada adiantarão em um cenário em que o capitalismo de laços continue vigorando como uma, dentre muitas outras, ferramentas de interproteção mafiosa utilizadas pelo estamento burocrático e pelas forças patrimonialistas como um todo.

O mais preocupante é que os efeitos disso não param por aí. A cada dia que passa, os riscos se multiplicam: nos últimos dias, temos assistido (1) à esquerda se dando conta de que pode (e de como pode) instrumentalizar os sentimentos populares para impulsionar seu retorno ao poder de jure; (2) à classe política se dando conta de que não será possível se salvar sem, concomitantemente, salvar as lideranças do PT; (3) a parcelas significativas da direita nascente sacrificando a guerra cultural em nome de alguns poucos ganhos, minguados e questionáveis, na economia; (4) ao aprofundamento da crise de representatividade; (5) ao avanço do braço togado da esquerda; e (6) à manutenção de uma situação revolucionária que, de certo modo, remete à situação instalada na Rússia em 1905. Já diziam as nossas avós, não há nada tão ruim que não possa piorar — e, acreditem, no final não haverá prazer ou consolo algum em poder dizer que avisamos que isso tudo ocorreria, se escolhas ruins fossem feitas.

Quem leu “Maquiavel, ou a Confusão Demoníaca”, está familiarizado com a forma como o Professor Olavo integrou as obras de Bertrand de Jouvenel e de Georg Jellinek à sua própria filosofia política, e fez um esforço mínimo para compreender a tese carvalheana sobre como o faoro-gramscismo explica os eventos que se desenrolaram desde junho de 2013 não se surpreende com nada disso. Mas quantas pessoas dão atenção a essas coisas em um país que tem tanto desprezo pelo conhecimento e que cultua, acima de tudo, a aparência de pragmatismo e maturidade?