1. Cultura

O que é dito e o que não é

4 de setembro de 2017 - 16:03:46

Imagine a troca de experiências entre pessoas com uma bagagem literária muito grande. Elas possuem um monte de referências literárias em comum, de modo que ao trocar experiências elas parecem que estão tocando piano. E sempre que não conseguem expressar diretamente o que estão sentindo, elas recorrem a uma analogia literária. Escritores quando conversam entre si fazem isso o tempo todo. Eles têm muito mais bagagem de leituras feitas do que capacidade de expressão, assim como todo ser humano. Todos nós, como pertencemos à mesma espécie, temos potencialmente a capacidade para termos as mesmas experiências interiores. Mas você dificilmente terá a capacidade de expressá-las com palavras próprias. Então você deve usar os recursos que estão na cultura.
A conversa entre dois homens que estão culturalmente afinados está para a conversa entre duas pessoas incultas assim como uma ligação telefônica está para outra que foi feita para um número errado. Isso é o mesmo que dizer que pessoas incultas simplesmente não conversam. Os seus mundos interiores são incomunicáveis às vezes até para elas mesmas. Como elas não sabem dizer o que estão vivenciando, essa vivência não se registra na memória, porque a memória não pode registrar estados interiores sem um símbolo que os compacte. Isso é uma angústia terrível. Noventa e nove por cento das neuroses surgem porque a pessoa não sabe falar. Assim, a primeira função da educação é uma função libertadora; de você conseguir dizer, e dizendo você se exorciza. Para um homem inculto, qualquer conflito interno é único, singular, solitário e incomunicável. Já um homem que tem ao menos a cultura da literatura de ficção sabe que é o trilionésimo a ter os mesmos conflitos. Num meio inculto as pessoas estão muito isoladas. Elas só podem se comunicar numa faixa estreita de assuntos banais e pragmáticos. Nesse meio, a experiência interior se perde porque não há registro simbólico para gravá-las na memória ou se acumula numa massa de sentimentos confusos que isola as pessoas umas das outras. Basta isso para você entender que essa história de que o homem inculto é mais feliz é uma monstruosidade. O sofrimento indizível é um bilhão de vezes pior que o dizível.

  • Luiz F Moran

    Trivium e Quadrivium

  • marcelo almeida

    É por isso que as pessoas perderam sua capacidade de serem sinceras até com si mesmas.

  • marcelo almeida

    É por isso que tudo que se faz é para neutralizar a inteligência humana. O primeiro passo para a dominação das massas é esse.

  • marcelo almeida

    Enquanto os animais apenas sentem, o ser humano necessita raciocinar e agir pela razão em primeiro lugar.

  • marcelo almeida

    Em relação à bagagem literária muito grande, assistimos, hoje em dia, pseudointelectuais que citam de cor todos os grandes nomes do passado, mas são incapazes de pensar pela própria cabeça.

  • marcelo almeida

    Entretanto, quando o homem inculto possui um coração desejoso e sincero pela verdade e pela justiça de Deus, ele consegue ser sincero mais facilmente do que o culto que se agarra na sua cultura e no seu próprio eu…

    • André Gustavo Paião Oliveira

      Acho que nos termos do texto faz mais sentido se você comparar o pouco culto com o muito culto, o primeiro sincero e o segundo agarrado a algo, pois o inculto está sendo considerado justamente como aquele incapaz de viabilizar continuamente essas dúvidas internas como expressão exterior.

  • marcelo almeida

    Caro Olavo,
    se eu não conhecesse a amplitude do seu pensamento, diria que esse artigo é bastante elitista…

  • marcelo almeida

    Não existe sofrimento dizível e indizível. O sofrimento é um só!!!

  • Odilon Rocha

    Perfeito. Cristalino como água.

  • marcelo almeida

    O livro “O Jardim das Aflições” incorreu em um gravíssimo erro ao colocar o Sr. Peçanha como vítima. Ora, bolas! A vitimização do bandido é coisa da esquerdalha…

  • marcelo almeida

    Criar sofrimento dizível e indizível é o mesmo que falar em direito da minoria. Ora, o direito é um só.
    O direito da minoria é igual o da maioria, assim com o sofrimento também é um só…

  • Fabiano de Almeida

    Não posso deixar de lembrar-me do Mestre Amaro – nomem est omen… -, personagem do excelente Fogo Morto, de José Lins do Rego…

  • Thiago

    “Noventa e nove por cento das neuroses surgem porque a pessoa não sabe falar”

    Absolutamente faz sentido.