1. Cultura
  2. Sociedade

Filosofia, educação e a obra de Julius Stenzel

7 de dezembro de 2017 - 21:28:16

É impossível ler o clássico estudo de Julius Stenzel sobre “Platão Educador” sem chegar a algumas conclusões definitivas sobre a natureza da filosofia e os deveres do filósofo. Uma vez compreendido que, se a filosofia de Platão (e portanto também forçosamente as de Sócrates e Aristóteles) é essencialmente EDUCAÇÃO, e educação da consciência, fica aí esclarecido, sem margem para dúvidas, qual deve ser o papel da filosofia no conjunto da vida social e política: é o mesmo papel que cabe a todo e qualquer trabalho educacional. Não cabe ao educador premoldar o futuro de seus estudantes, mas apenas ajudá-los a encontrar e realizar o seu próprio destino. Por essa mesma razão não lhe cabe reformar a sociedade, mas apenas preparar as novas gerações para que, em caso de necessidade, e se isto corresponder às suas vocações pessoais, possam reformá-la como bem o entendam, inspirando-se indiretamente nos valores aprendidos do filósofo mas sem se prender a alguma fórmula que ele, aliás, jamais deve lhes transmitir.

A intervenção da filosofia na política só se revela frutífera quando é indireta, sutil e de longo prazo. Não é coincidência que o próprio Platão só tenha alcançado a maturidade das suas idéias depois de falhadas as suas ambições de reformador social e político (o que o leva na “República” a argumentar decisivamente CONTRA o sonho da sociedade perfeita, ao contrário do que imagina um platonismo de Almanaque da Mônica). Também não é por mero acaso que, em contrapartida, muitos reformadores sociais tenham sido filósofos capengas ou fracassados, como Charles Fourier, Victor Cousin, Augusto Comte, Karl Marx ou Giovanni Gentile.

P. S. – Por isso é que fico puto dentro das calças quando gente da direita ou da esquerda pretende que eu seja “o guru da direita”. Não sou nem quero ser.

 

Caio Fonseca: Professor Olavo de Carvalho, esses filósofos capengas que o senhor citou tinham pretensão de reformar a sociedade por má compreensão do Platão?

Olavo de Carvalho: Por má compreensão da filosofia em geral e de si mesmos em particular.

Israel Azevedo: Professor, porque eu tenho a impressão que todo mundo que fala que a República é sobre a construção da sociedade perfeita (inclusive alguns dizem que ali se encontra a descrição da sociedade comunista) parece sinceramente que nunca leram esse livro. As conclusões finais dele e a queda de Kalipole depois de umas tantas gerações sempre me pareceram muito claras e só mesmo um pomposo idiota que nunca leu a obra do começo ao fim pode tirar essas conclusões tão absurdas.

Olavo de Carvalho: Verdade pura.

João Ricardo Nascimento: Esse livro é melhor do que o do Werner Jaeger, professor?

Olavo de Carvalho: Infinitamente melhor.

 

  • marcelo almeida

    O papel da filosofia é o estabelecimento de princípios espirituais, morais e éticos.
    Os valores decorrentes desses princípios formam a cultura de um povo em determinada época.
    Quem governa não é o pai ao filho, o governo aos administrados e nem o chefe ao funcionário.
    Quem de fato governa são os princípios de cada um.

  • João Sena

    O filósofo, uma vez compreendendo os problemas, deve tentar esclarecer os pontos obscuros em que está envolta a sociedade ou levantar questionamentos importantes para as novas gerações. Jamais tenar conduzi-la. Já houvi pessoas dizerem que o filósofo não serve para nada, mas é por total ignorância.