1. Literatura

No instante em que você abre um livro

25 de maio de 2017 - 15:17:43

A literatura é, no nosso trato com a realidade da experiência, o espelho em que Perseu olha o rosto refletido da Medusa, neutralizando o feitiço da visão direta e crua.

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Uma realidade que seja rebelde a todo tratamento literário é um turbilhão hipnótico e devastador, um flagelo incompreensível que reduz as consciências à total inermidade.
Assim tem sido a vida brasileira nas últimas quatro décadas.

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Todo livro que você lê foi um dia uma vaga idéia na cabeça do autor, depois um longo trabalho de construção, destruição e reconstrução até consolidar-se em obra pronta, depois uma carreira editorial seguida de longos debates entre leitores, críticos e escritores em geral, até formar uma certa imagem relativamente estável na constelação dos fenômenos culturais e multiplicar-se em reedições e traduções. Toda essa pré-história está presente, de maneira velada, no instante em que você abre o livro pela primeira vez. Conhecê-la — ou pelo menos imaginá-la — é assegurar que sua reação à leitura não será uma pura fantasia subjetiva, mas uma participação viva na história das formas, dos símbolos e das idéias.

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Estou com setenta anos, e nunca, nunca, nunca me ocorreu pensar que qualquer restrição que eu tivesse às idéias de um filósofo devesse diminuir, moderar ou atenuar a minha admiração por ele. Mesmo que fossem idéias fundamentais da sua filosofia e não meras opiniões de detalhe.

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Aliás nenhum filósofo jamais pensou uma tolice dessas. Filosofia e mesquinharia são incompatíveis.

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Aristóteles fez mil objeções à filosofia de Platão e continuou a considerá-lo nada menos que a melhor pessoa do mundo.

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Discordo de vários pontos da filosofia do Mário Ferreira e, enquanto viver, continuarei a proclamar que ele foi não apenas o maior dos nossos filósofos, mas o maior dos brasileiros.

  • Forkert

    Em que o senhor discorda da filosofia de Mario Ferreira dos Santos? Quais são estes diversos pontos?