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Mário Ferreira dos Santos: o novo curso, o estado das obras, e a real condição das edições já lançadas

29 de novembro de 2017 - 5:54:41

Atualizado em 30/11/2017.

 

O curso Mario Ferreira dos Santos começou nesta segunda-feira. Para acessar a sala de aula e a gravação das aulas, clique no link http://www.seminariodefilosofia.org/mario-ferreira/

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Nunca, na minha porca vida, hei de dar um curso meramente escolar sobre a obra de um filósofo. Ou trabalho as idéias dele seriamente, até torná-las minhas ao ponto de raciocinar como ele sobre pontos em que ele nunca pensou, ou então não faço porra nenhuma. Ensina-se filosofia filosofando, ou não se ensina de maneira alguma.

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A É-Foda-Realizações, num esforço desesperado para dar alguma respeitabilidade às edições bonitinhas mas ordinárias que vem fazendo das obras do Mário Ferreira dos Santos, publica fotos dos originais de um ROMANCE escrito pelo filósofo em 1940, repletos de correções manuscritas, e com isso pretende insinuar que todos os volumes da “Enciclopédia das Ciências Filosóficas”, compostos a partir de QUATORZE ANOS DEPOIS, receberam do autor o mesmo tratamento e constituem por isso textos canônicos, dignos de ser publicados sem novas correções.
A desonestidade intelectual dessa gente não tem limites, nem constrangimentos, nem escrúpulos de qualquer natureza.

Pensem bem. Os volumes da “Enciclopédia” estão tão repletos de anacolutos, que, admitida a hipótese de o autor tê-los redigido em pessoa e dado a eles uma revisão criteriosa, seria inescapável a conclusão de que esse autor era um semi-analfabeto. Conclusão desmentida antecipadamente pela boa qualidade literária dos livros que ele publicou antes de lançar-se à aventura de compor, às pressas, sua obra magna. Construida em apenas quatorze anos de trabalho, à base de quatro ou cinco livros por ano, essa obra resulta obviamente de gravações transcritas de improvisos orais, nos quais a presença dos anacolutos é normal e praticamente inevitável, em nada depondo contra a dignidade literária do autor.

A tese — chamemo-la assim — da editora é apenas autojustificação forçada “ex post facto” e, ao mesmo tempo, fusquinha anti-olavética pueril e desprezível.

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P.S. – A “Filosofia da Crise” parece ter mesmo recebido do autor uma revisão mais séria. Os demais volumes da “Enciclopédia”, não.

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Doze anos atrás, eu e um grupo de alunos estávamos trabalhando numa revisão em profundidade dos textos do Mário Ferreira e já tínhamos dois livros prontos, quando a É-Realizações boicotou o nosso trabalho e começou a lançar os livros do autor no estado em que estavam, apenas conferindo levemente as várias edições de cada um, todas repletas de erros, retardando propositadamente uma difusão honesta da obra do pensador.

Decorrida uma década, a editora vem agora contestar — em tom de revelação bombástica — que esses livros tenham sido produzidos com base em transcrições de conferências, e como prova divulga alguns originais datilografados com correções do autor. Isso é o mais ridículo simulacro “ex post facto” de honestidade editorial que tenho visto nos últimos tempos. Em que é que o fato de um original ter correções do autor prova que ele o redigiu pessoalmente em vez de simplesmente trabalhar sobre uma transcrição feita por sua esposa, como esta mesma me informou que ele fazia? Eu mesmo examinei alguns desses originais datilografados, que a filha do filósofo, Yolanda, me deu tempos atrás, e jamais tirei deles uma conclusão tão estapafúrdia.

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Pior: A editora proclama que a idéia de os livros do Mário Ferreira dos Santos terem se originado de transcrições PREJUDICOU GRAVEMENTE a compreensão da obra ao autor. É ranhetice anti-olavética disfarçada de escrúpulo editorial.

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Renan Martins dos Santos: O Sr. não deve ter visto, mas há óbvias indiretinhas ao Sr. na SINOPSE DA CONTRACAPA de um dos livros do Mário que a É recém relançou. É isso mesmo. Este é o nível do mercado editorial no Brasil. Veja só (num texto pra lá de mal escrito e caricato, por sinal):

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Olavo de Carvalho: Renan Martins Dos Santos: Veadagem non habet finis.

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Olavo de Carvalho: By the way, tenho paginas e páginas de transcrições de minhas próprias aulas com correções que fiz à mão. Corro o risco de que algum dia um editorzinho as use como prova de que redigi esse material pessoalmente

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Andreza Cristina Castro: Olá, querido professor, tenho uma dúvida, ainda seria válido a aquisição desse material da É realizações? Ou existe possibilidade de termos algo mais honesto em mãos sobre a obra do grande Mário Ferreira dos Santos?

 

Olavo de Carvalho: Se você não tem acesso aos textos por outro meio, que remédio?

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Auridélia Moura de Arruda: E esses dois livros já prontos serão também publicados?

Olavo de Carvalho: Não. A É-Foda-Realizações detém os direitos.

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Tanto a esposa quanto a filha do Mário Ferreira me contaram que ele tinha a esperança de que depois da sua morte alguém viesse a fazer uma revisão em profundidade dos seus textos. Isso prova, acima de qualquer dúvida possível, que ele tinha plena consciência do estado precário dos originais que enviava à impressão. As correções feitas à mão eram insuficientes, e ele sabia disso.

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Tenho prática de corrigir transcrições das minhas aulas, e consigo avaliar a distância imensa entre uma transcrição corrigida e um original escrito por mim mesmo.

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Por que, sempre que revelo a existência de alguma coisa importante, ou retiro do subsolo algum tesouro esquecido, os que teriam a obrigação de haver feito isso antes de mim se emputecem e ficam fazendo fusquinha como crianças ranhetas, em vez de dizer “obrigado” e prosseguir honestamente o trabalho que comecei? Foi assim com o Foro de São Paulo, foi assim com os ensaios do Otto Maria Carpeaux, foi assim com a filosofia do Mário Ferreira dos Santos. Que país de gente mais complexada, caraio!

Da minha parte, sou tão grato aos que me antecederam em qualquer campo das minhas investigações, como por exemplo o Nelson Lehmann da Silva ou o José Carlos Graça Wagner, que não só proclamo repetidamente os seus méritos como não ouso criticá-los nem mesmo em detalhes irrisórios. Mas não é essa, por acaso, a atitude normal de pessoas adultas?

 

  • Ricardo

    Voce, Olavo, é genial!
    Que Nosso Senhor Jesus Cristo continue o abençoando.

    • Roberto Felippe Santiago

      Amém 😀

  • Rodrigo Gonçalves Pereira

    Como a ‘É’ conseguiu esse direitos de cópia?