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O que as crianças admiram e as futilidades da vida adulta

12 de setembro de 2017 - 1:03:21

A coisa que as crianças mais admiram é ver um adulto fazer algo com precisão, acerto e domínio da situação. Enxergam nisso um modelo a seguir, e aprendem sem que ninguém esteja lhes ensinando nada. Eu ficava maravilhado quando meu pai pescava uns peixes e fazia uma fritada para nós ali mesmo na beira do rio. Ou quando meu tio-avô Tozinho, munido de um canivete, improvisava um cachimbo com um galho de árvore. Ou quando via meu tio Naim montar a cavalo. Ou quando meu padrinho Torres, com um serrote e uma lima, me fabricava em cinco minutos uma espingarda de pau. Eu queria ser como eles, e, naquele momento, faria imediatamente o que quer que me mandassem fazer. Aquela era a verdadeira autoridade.

Um pai dar esses exemplos é infinitamente mais útil e benéfico do que brincar com os filhos, fazendo-se ele próprio de criança. Nenhum menino olha um adulto em busca de um modelo de criança.

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Do mesmo modo que desde o primeiro dia amei a Igreja, os hinos sacros e o latim da missa que aprendi como coroinha, sempre me senti deslocado na ritualística civil das festinhas de aniversário, das celebrações de casamento e bodas de prata e de ouro, dos bailes de debutantes, da disciplina familiar imposta às crianças, dos tribunais de mocréias que condenavam as moças assanhadas.

Sinto que até hoje não mudei em nada. Vejo meus netinhos espremidos em sapatos novos para brilhar ante as tias e não entendo por que os adultos têm de torrar a paciência infantil com essas futilidades.

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Oitenta por cento da disciplina que se impõe às crianças consistem em dar um sentido moral postiço às meras conveniências práticas — ou à preguiça — dos adultos.

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Minha sorte na infância foi que eu era um moribundo e ninguém me dava ordem nenhuma.

Quando sarei, começou o tormento. Logo me vestiram um terninho, me botaram uma gravatinha e me mandaram entrar na fila para tirar foto em frente a um treco que diziam ser a bandeira do Brasil. Fiquei aterrorizado. Era a morte.

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A Moema Viana tem razão: os pobres às vezes ficam livres dos rituais pequeno-burgueses. Não têm ante quem exibir comportamento engomadinho.

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Tudo o que não se justifica perante o sentido último da existência é pura frescura.

 

  • marcelo almeida

    As palavras movem, mas os exemplos arrastam…

  • marcelo almeida

    Eu já detestei a igreja católica desde a mais tenra idade. Seus rituais, liturgias e tradições sem finalidade nenhuma a não ser criar um Deus histórico e apático. Isso sim, é pura frescura…

    • Lucas Green

      Esses crentelhos deserdados culturais…

  • marcelo almeida

    Imagine uma criança com um pai viciado e uma mãe prostituta, igual existem aos montes pelo mundo afora, heim?!

  • Adilson Baptista

    Se nós, adultos, buscarmos sabedoria, bem lá no fundo, em nossa essência, aquela que já nos foi dada no nascimento, reaprenderemos a olhar o mundo com a pureza das crianças, ensinando-as numa linguagem de amor perfeitamente compreensível para elas. Talvez assim deixemos de ‘adultizar’ os pequenos, querendo deles comportamentos que nem nós somos capazes de ter. Obrigado professor Olavo pelos sempre sábios artigos.

    • marcelo almeida

      O Olavo não precisa de elogios fáceis, tanto quanto de ataques grosseiros.

      • Thiago

        Qual o problema, cara? Da mesma forma que quando vemos um artigo bosta de um autor bosta temos liberdade de achincalhar, quando lemos algo bem escrito e de alguém que consideramos brilhante temos o direito de elogiar. Que chatice.

  • marcelo almeida

    As futilidades da vida adulta são as mesmas futilidades da vida infantil.
    A maioria dos adultos continuam com o mesmo egoísmo, reação de choro e raiva, sem domínio próprio, etc… São crianças psicologicamente falando, mas adultos biológicos.

  • Osvaldo Pereira Júnior

    Crianças devem respeitar os adultos e não temê-los. E o respeito não se consegue judiando ou batendo desnecessariamente e muito menos fazendo elas passarem necessidades. Assim como também não se consegue respeito presenteando-as caso elas não mereçam.

    Respeito se consegue com recompensas e castigos nos momentos certos.Mas nada de maneira exagerada.

    O respeito fará com que a criança colabore com você por livre e espontânea vontade dela, ao passo que o medo a fará te obedecer por pura obrigação apenas para não apanhar naquele momento. Pode ter certeza que assim que ela crescer, ela será um adulto revoltado e irá te destruir na primeira oportunidade que tiver.

    Claro que existem exceções a regra como crianças que abandonam os país mesmo tendo sido criadas de maneira exemplar, mas isso são os conhecidos psicopatas e eles existem em todos os lugares.

  • marcelo almeida

    A sorte não foi o Olavinho ser um “moribundo”, mas sim ele ter sarado e crescido e ter se consumido na sua sede de saber, vindo a saciar a muitos com a luz do seu raciocínio.

  • Thiago

    Olavadas do Olavo.

    Não entendo os ataques que o professor tem sofrido. Quero dizer, só consigo entender mediante a aceitação da natureza perversa de muitos nesse país.

  • Odilon Rocha

    Excelente.

  • moodyxadi

    Isso tudo é para rebater indiretamente as acusações da filha sobre sua postura enquanto pai?