1. Cultura

Paulo Francis e pseudocultura

21 de julho de 2017 - 2:02:50

O mais óbvio sintoma da pseudocultura entojada dos nossos dias é o vício de comparar a minha figura com a do Paulo Francis. Creio que foi o Robert Civita quem inventou a moda. Toda a afinidade que eu possa ter com esse meu falecido amigo reside na coincidência de que, na superfície jornalística das coisas, ambos representamos durante algum tempo a exceção “direitista” ao monopolismo hegemônico da esquerda. Em TUDO o mais — ou seja, em tudo o que de fato interessa à história cultural séria –, nenhuma comparação é possível. Francis foi um cronista político por vocação, desde a juventude, e um romancista falhado na maturidade. Eu sou um professor de filosofia que só entrou na crônica política já cinquentão, de má vontade e por absoluta falta de quem mais ousasse dizer certas obviedades, ainda que com atraso formidável (deixei isso muito claro no prefácio a “O Imbecil Coletivo”). Não vejo nos escritos do Francis o menor esforço de filosofar, mesmo sobre a política, nem nos meus um sinal, remoto que seja, de uma vocação de romancista, bom ou mau. Quanto às influências que nos moldaram — as coordenadas que nos localizam no mapa do pensamento mundial –. não poderiam ser mais diferentes. O Francis era eminentemente um filhote dos “intelectuais públicos” anglo-americanos, aos quais dou uma importância muito limitada, ao passo que a lista (incompletíssima) dos “meus gurus”, na homepage www.oloavodecarvalho.org, só menciona autores pelos quais o Francis jamais demonstrou o menor interesse.
Quando a mídia nos compara, ela prova que só enxerga de nós aquilo que ela mesma, sem nos consultar, projetou sobre as nossas figuras segundo uma escala de interesses que é dela, não do Francis e muito menos minha.

Pior: A linguagem do Francis era um condensado — bem engenhoso, aliás — da fala dos chamados “intelectuais de Ipanema”, que adquiriu forma escrita no “Pasquim”. A minha é um complexo barroco que eu mesmo inventei combinando modelos como Léon Bloy, Eric Weil, o vocabulário escolástico, a fala de certos radialistas e humoristas populares e outros exemplos totalmente alheios à esfera de interesses do Francis. O único escritor brasileiro que me inspirou um pouco, nessa área, foi o José Geraldo Vieira.

Sempre pensei que o nazismo fosse um tardio desvio nacionalista do movimento socialista, mas acabo de aprender que o socialismo alemão já nasceu nacionalista e só depois se tornou internacionalista. Inspirado em Fichte, a quem considerava “o maior dos patriotas alemães”, Ferdinand Lasalle, um dos mais próximos colaboradores de Karl Marx e fundador da Associação Geral dos Trabalhadores Alemães, pregava pelo menos desde 1859 aquilo que viria a ser um dos itens principais do programa de Adolf Hitler: a unificação dos povos de língua alemã sob um Estado central. Nunca fui um fã de Alain de Benoist, mas tenho de confessar que devo a ele essa informação

Na verdade o movimento socialista andou sempre indo e vindo entre o internacionalismo e o nacionalismo.

  • Rafael José Caruccio

    Li o “Trinta Anos esta Noite”. Os estilos do Professor e o do Francis são escandalosamente diferentes, apesar de ambos serem gênios das letras. O seu “O Jardim das Aflições” é um dos melhores livros que já li, e o Trinta Anos é divertidíssimo. Já em relação aos artigos, o Professor leva uma certa vantagem, pois sua linguagem é a um só tempo corretíssima na gramática, nas soluções semânticas e ainda agradável. Ler um artigo de O. de Carvalho deixa a sensação de “quero mais”. O Francis eu lia muito na Zero Hora na década de 90, mas confesso que entender Paulo Francis não era tarefa fácil. Primeiro porque naquela época eu era um adolescente de pouquíssima cultura, e segundo porque o Francis escrevia como se estivesse conversando com amigos, situação na qual o interlocutor já sabe várias coisas de antemão, dispensando o autor de desdobrar as informações. Cria a situação em que o ouvinte (ou no caso o leitor) finge por educação estar entendendo tudo.

  • Clementino Zelador

    O Paulo Francis era um dândi sem remorsos. Por isso falavam que ele era veado.