1. Cultura

Tolerantes com a ignorância

20 de junho de 2017 - 6:59:05

Os brasileiros são muito mais tolerantes com a ignorância do que com a erudição.

Esta é a regra: Ser ignorante é “ser gente como a gente”. Ser erudito é humilhar as pessoas.

Um povo que pensa assim NUNCA se levantará da merda, por mais que os céus e a Natureza o ajudem.

Se num único ponto eu puder mudar o Brasil, farei isso por todos os meios ao meu alcance: que aprenda a respeitar mais o conhecimento e menos a lábia, as poses e os cargos.

O desinteresse pelas coisas mais altas, a indiferença pelo dever de elevar e aprofundar a própria consciência, a falta do desejo de conhecimento, VIOLAM DIRETAMENTE O PRIMEIRO MANDAMENTO. A consciência anestesiada do religioso mentalmente indolente é um escândalo maior do que toda a putaria do mundo.

A simples menção da palavra “Deus” deveria despertar no ser humano as perguntas mais dramáticas e a ânsia de encontrar respostas. Se isso não acontece com você, você está espiritualmente MORTO e a sua reza não passa de uma sucessão de arrotos.

 

Li ontem, de novo, a parábola do juiz iníquo que, por medo ou outro motivo qualquer, faz justiça de vez em quando. É impossível ler esse parágrafo sem ter de fazer face às perguntas: O simples desejo de ser um juiz já não é uma iniquidade? Como é possível que tantas pessoas, sem ter nem pensado em adquirir a mais alta disciplina interior e em afinar sua consciência moral até o máximo possível, se julguem capacitadas a decidir os destinos humanos porque têm um simples diploma de dotô? Não seria a justiça humana INTEIRA baseada na vaga esperança de que o juiz iníquo faça justiça de vez em quando? E assim por diante.

A ÚNICA desculpa para não buscar o aprimoramento da consciência é a INCAPACIDADE. Essa desculpa é aceitável, desde que não se pretenda ostentar a incapacidade como um mérito sagrado.

O número de pessoas que tinham acesso a livros era ÍNFIMO. Os livros eram copiados à mão, um por um. O acesso às universidades era dificílimo. Todos esses obstáculos foram removidos.

 

 

Não posso conceber que uma pessoa inteiramente absorvida na rotina imediata e desprovida de qualquer interesse genuíno pelo mistério da existência tenha algo que legitimamente se possa chamar de “fé”. Essa hipótese me parece totalmente impensável. Se alguém nunca fez a pergunta, que sentido faz dizer que tem fé na resposta?

Nunca consegui ler UMA SÓ LINHA da Bíblia sem me perguntar mil vezes: Que é que isto quer dizer REALMENTE? Não no sentido doutrinal e genérico (para isto basta consultar os teólogos), mas existencialmente, concretamente, na minha própria vida e, de preferência, neste momento? Com frequência não obtive resposta, mas a constelação de perguntas que cada versículo sugeria iluminou, por certo, a minha compreensão da vida, e estou muito grato por isso.

Isso não quer dizer que eu INTERPRETE a Bíblia. Fujo disso como quem evita conversa de bêbado. Ao contrário. Deixo que as perguntas apareçam naturalmente e que o tempo naturalmente as responda — sabendo que as respostas valem apenas para mim mesmo, na maior parte dos casos.

O episódio de Jefté, por exemplo (Juízes 11:39), me deixou embasbacado por muitos meses, até que um esboço de resposta começou a aparecer, mas, sabendo que era coisa subjetiva, nunca me aventurei a publicar as notas que então tomei a respeito.

Nada me deprime mais do que ver o homem medíocre posando de guia das almas. Vi outro dia o debate em que alguns pastores da linha dita “progressista” tentavam desmoralizar o Pastor Marco Feliciano com uma insinuação de racismo por ter associado as misérias do continente africano à maldição de Cam. Um deles, pastor Hermes C. Fernandes, foi festejado no Youtube, com quinhentas e tantas mil visualizações, por ter dado, segundo o editor do vídeo, uma “surra de conhecimento histórico” no seu colega. A surra consistiu em declarar, entre outras coisas, que: (a) A maldição da África são os brancos; (b) que sem a intromissão de europeus e americanos o destino da África teria sido diferente, visto que ali haviam florescido grandes impérios, como por exemplo o egípcio.
Nada disso é cultura histórica. É uma ignorância radical, completa, imperdoável. A começar pelo exemplo citado. O Império Egípcio viveu e durou com base na exploração de escravos. A escravidão era generalizada e institucional na África desde milênios antes da chegada dos europeus, e os grandes impérios que ali floresceram, como por exemplo o de Oyo, viveram do aprisionamento e tráfico de escravos. Em contraste com essa exploração milenar, os brancos participaram do tráfico durante apenas três séculos, e sua passagem pela África espalhou ali escolas, hospitais, estradas, assistência médica gratuita e mil e um outros benefícios, entre os quais A ABOLIÇÃO DA ESCRAVATURA, uma idéia que jamais tinha ocorrido aos belos impérios mencionados pelo Pastor Fernandes.
A coisa mais fácil, no Brasil, é ludibriar a platéia inculta com uns respingos de pseudocultura.

 

  • Tulio Stephanini

    Difícil ler esse texto do Olavo e não pensar “como sou tão ignorante”, vejo todos os advogados com um leve toque de criminoso em sua personalidades advogando por ai, engenheiros que não sabem calcular, não tem criatividade mas tem um CREA e eu pensando no tanto de coisas que não sei ainda, não posso ser tolerante com a minha própria ignorância.

  • José Amaro

    Quando e quem declarou que a ignorância é a mãe de todos os erros?
    A partir de quando a escola começou a tornar-se obrigatória?
    a) A partir do advento da modernidade…
    b) Com o objetivo claro de doutrinação religiosa… em 1524…
    c) Em 1559 pelo duque Christopher…
    d) Para uma minoria de eleitos comandar a sociedade em 1536…
    e) Foi introduzida pela Revolução Francesa em 1791…
    Pô! Fui humilhado pelo Fausto Zamboni…

  • João Sena

    Parabéns Olavo pela refinada análise. Como você já disse, as pessoas querem ganhar uma discussão utilizando-se de chavões, de mentiras consagradas e por aí vai. Não se dão ao trabalho de buscar a verdade ou até mesmo de questionarem sobre o que afirmam corresponde a realidade. Observo em determinadas pessoas certa indignação, por exemplo, quando discorro sobra algum assunto, Querem saber como eu sei do que estou falando, se tenho diploma ou frequentei alguma escola. É como se para conhecer algo é necessário ter um diploma ou passar por uma instituição de ensino legalizada. É lamentável esse estado de ignorância que reina no Brasil.

  • Robson La Luna Di Cola

    Uma de nossas tarefas mais nobres: a busca da compreensão deste mundo em que vivemos.