1. Mentalidade Revolucionária

Catalogação partidária

26 de maio de 2017 - 4:10:31

“Fiz o possível por entender aqueles homens, penetrar-lhes na alma, sentir as suas dores, admirar-lhes a relativa grandeza, enxergar nos seus defeitos a sombra dos meus defeitos.”
Esta frase das ” Memórias do Cárcere” de Graciliano Ramos, que hoje mesmo o Bruno Gama Duarte recordou a propósito de outra coisa, revela algo sobre a devastadora crise moral brasileira. Nos anos 30 do século passado, um comunista, um ateu, podia tentar compreender e amar as almas dos que o prenderam e atormentaram. Hoje em dia, os que se dizem cristãos são incapazes de imaginar como um ser humano quem simplesmente diga algo que lhes pareça um pouco estranho. Coisificar, demonizar, odiar e temer — tais são as operações básicas com que a alma contemporânea tenta se orientar perante as outras almas.

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A politização geral da vida humana reduziu a atividade das consciências à mais elementar e mecânica das operações: a catalogação partidária. Já não há mais seres humanos de carne e osso, apenas eleitores, cuja única substância ontológica é o nome do candidato em que votam. O “cidadão” já era um ente abstrato, o “eleitor” é um segundo recorte abstrativo feito em cima do primeiro. Tão logo você nota que o sujeito é “de direita”ou “de esquerda”, está alcançado o único e supremo objetivo da inteligência humana.

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Para não dizer que só há duas categorias, há quatro: a direita, a esquerda, e os respectivos “extremos”, os quais, é claro, devem ser evitados a todo preço, a bem da ordem pública, das boas maneiras e da estética facial.

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Embora a coisa mais evidente do mundo seja que hoje a autodenominada esquerda é o instrumento principal a serviço da ordem globalista, a auto-imagem de cada esquerdista ainda se define pelos antigos sentimentos de rebeldia e independência que se associaram à idéia de “revolução”. Isso faz com que seja quase impossível, a um esquerdista dos nossos dias, saber onde está e o que está fazendo. Em conseqüência, cada vez que ele vê um cidadão defendendo os interesses nacionais contra os dominadores globalistas, coisa que a própria esquerda fazia umas décadas atrás, ele já enxerga por trás disso o “ódio a gays, negros e mulheres” (os quais não tinham entrado na história de maneira alguma), e se enche de horror.

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A própria catalogação ideológica, que é o instrumento principal ou único de orientação da consciência contemporânea no mundo, tornou-se nada mais que projeção fantasmagórica, o que reduz a menos que zero o pouco de valor cognitivo que ainda pudesse lhe restar,

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O pior é que, quando o sujeito começa a tomar uma vaga consciência disso, ele busca um alívio proclamando que “esquerda e direita estão superadas” e apegando-se miseravelmente à ilusão da sua superioridade cognitiva no instante mesmo em que se dedica dia e noite a não compreender nada de nada.

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Já notaram que TODO MUNDO é “contra os extremismos de esquerda e de direita”? Como, nessas condições, se torna cada vez mais difícil encontrar um extremista de verdade fora do ISIS, o remédio é incluir nessa categoria qualquer idéia que soe um pouco esquisita, e, lutando pelo seu banimento total dos ambientes decentes, se não pela prisão dos seus responsáveis, acreditar piamente que o oposto do extremismo consiste em tomar medidas extremas.

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Hoje em dia, basta você dizer que um sujeito nunca roubou um tostão, que nunca bateu na mulher nem tocou punheta em público, para todo mundo jurar que você é do partido dele.

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Um dos modestos orgulhos que tenho no exercício da análise política é nunca ter xingado alguém de “falso direitista”. A principal característica da direita brasileira hoje em dia é o purismo, a ânsia irrefreada de traçar fronteiras doutrinais e banir os hereges. Desse mal não morrerei.

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O simples reconhecimento de virtudes ou vícios evidentes e gritantes tornou-se uma carteirinha de filiação partidária. E negar a filiação equivale a uma identidade de agente secreto.