1. Religião

Católicos, castidade e perdão

30 de maio de 2017 - 10:55:05

Levanto uma pergunta sobre o celibato forçado das pessoas leigas e, em resposta, surge uma discussão sobre o celibato clerical. Por favor: Muito ajuda quem não atrapalha. Em nenhum momento perguntei se o celibato forçado dos cônjuges separados é certo ou errado. Se a Igreja diz que está certo, está. O que está cem por cento errado — e nisto não adiantaria nem um Papa me contradizer — é colocá-las nessa situação e depois não se interessar nem um pouquinho em saber como isso afetou sua vida real, o que aconteceu com elas, quantas elas são, quantas por isso abandonaram a Igreja, quantas arranjaram amantes, etc. etc. O desinteresse por esse assunto é um escândalo, sobretudo se comparado à curiosidade insana e ânsia de opinar sobre o celibato clerical. Procurei, procurei, e não encontrei um único livro ou tese universitária a respeito. Comparem com a pletora de livros, teses, artigos, debates, filmes, programas de TV sobre o celibato clerical, e respondam: Por que tanto interesse pelos que escolheram o seu destino e nenhum por aqueles a quem ele foi imposto contra a sua vontade? A única resposta boa seria:
— Tem razão, professor. Vou estudar esse assunto e escrever um livro a respeito.

No Brasil tudo pode acontecer. Juro quis isto é verdade. Quando morávamos em Petrópolis, havia ali uma igreja evangélica na qual um pastorzinho, no auge do fervor insano, orava assim:
— Porra, Deus! Abençoa nóis, caraio!
Acredito cem por cento que não havia sombra de malícia nessa loucura.

Nos EUA, só quinze por cento das pessoas se consideram relativamente bem sucedidas no casamento. Mesmo supondo-se, num excesso de otimismo, que na população católica a proporção seja O DOBRO, ou mesmo O TRIPLO, ainda assim o número de católicos submetidos ao celibato forçado — ou à beira dessa condição — seria suficiente para despertar a atenção de sociólogos, psicólogos, educadores e sobretudo sacerdotes. Mas nem mesmo os inimigos da Igreja se interessam pelo assunto. A bibliografia a respeito é tão escassa, que dá a impressão de que o problema simplesmente não existe. Para mim, esse é um dos maiores mistérios da consciência moderna.

Não divido os seres humanos em direitistas e esquerdistas, nem em católicos e não-católicos (ou cristãos e não-cristãos), nem em normais e anormais, nem em bonzinhos e malvadinhos, mas nas duas categorias essenciais: aqueles que buscam desesperadamente a verdade da existência e aqueles que vivem perfeitamente bem sem isso. Os membros da primeira categoria constituem uma fração ínfima da população, mas já reparei que, em prol da minha saúde mental e física, o melhor para mim seria evitar todo contato com os da segunda. Encontro na Bíblia mais de quarenta advertências contra as conversas fúteis, mas no Brasil todo desinteresse pelas picuinhas em que a maioria das pessoas consome a quase totalidade dos seus neurônios é considerado pedantismo, elitismo e falta de caridade.

Como regra geral, é quase impossível que a busca pela verdade da existência não se traduza numa fome de conhecimento, na paixão pelos estudos. Mas, na sociedade presente, é tão forte a tendência de desviar todo esforço de cultura para objetivos secundários, laterais e menores, que é quase impossível que a paixão inicial não acabe se pervertendo em mero carreirismo profissional ou diletantismo chique.

Como, ademais, são os carreiristas e diletantes que majoritariamente constituirão a imagem pública da “pessoa culta”, isso estimulará muitas pessoas religiosas a desprezar a cultura e apegar-se ao fetiche da “simplicidade de coração”, imaginando, por um engano monstruoso, ser nisso muito fiéis ao ensinamento bíblico. Nesse sentido, o ingresso das igrejas evangélicas no Brasil, a partir dos anos 70 do século passado, agravou formidavelmente o mal endêmico do desprezo pelo conhecimento. Na maior parte dos casos que tenho observado, a religião reduz-se apenas a um Ersatz da busca pela verdade da existência. Fórmulas prontas de ordem geral, encontradas na Bíblia ou na Doutrina da Igreja, substituem confortavelmente as perguntas difíceis sobre a vida real e concreta.

Quando você está realmente em busca da verdade, nenhum preceito bíblico ou mandamento da Igreja acalma o seu coração. Ao contrário, cada um deles amplia num mistério insondável os paradoxos da existência comum.
O tom de segurança tranqüila e soberana com que tantos posam de detentores de certezas finais — isto quando não as usam como porretes para castigar hereges — só mostra que, em vez de ter encontrado as respostas, não chegaram sequer a entender as perguntas.

[Octavio Guimarães Neto Professor Olavo, como fazer para aceitar um preceito como VERDADE, sabendo que este não a encerra e que esta é insondável? Pessoalmente procuro, como indicou Santo Agostinho, “descansar meu coração em Deus”, confiando na sua Misericórdia e na ação personalissima do Espírito Santo em minha vida, sinalizando a VERDADE, na medida que eu me abra para ela , segundo a graça que me é dada. Como é a sua vivência desse processo?
Olavo de Carvalho Octavio Guimarães Neto Quando um ser humano “descansa o seu coração em Deus”, quer dizer que Deus lhe revelou verdades que ele jamais conseguirá traduzir em palavras. A “paz que ultrapassa todo entendimento” ultrapassa, mais ainda, a linguagem humana. Não se traduz em afirmações ou negações.]

Cada linha que escrevi foi para um só leitor: Deus. Escrevi-a na esperança de que, no Juízo Final, Ele me explique inteiro tudo o que compreendi em fragmentos. Regra de estilo: Nunca reduza nada a uma caricatura. Ou a coisa é caricatural em si mesma, e neste caso basta descrevê-la, ou não deve ser objeto de gozação. Ou a comicidade é um efeito espontâneo do absurdo real, ou é agressividade impotente.Por que a Bíblia amaldiçoa aquele que traz o escândalo, mas reconhece que o escândalo é necessário? Porque sem o escândalo a fé religiosa se reduz a um anestésico da inteligência. Mas esse anestésico é exatamente o que a maioria deseja encontrar nela.

A oração maluca do pastorzinho de Petrópolis não foi nenhuma blasfêmia. Foi o grito sincero de uma alma simplória desesperada:
— Porra, Deus! Abençoa nóis, caraio!

Se o anjo pôde aguentar umas porradas de Jacó, por que não pode ouvir os palavrões de um crente angustiado? Só para evitar confusões. O caso de S. José não tem nada a ver com celibato forçado, mas com simples castidade matrimonial. Ele nunca foi proibido de abraçar Maria, acariciá-la e dizer-lhe palavras doces. Tenho mesmo a impressão de que o destino final de todo casamento bem sucedido é tornar-se, um dia, matrimônio casto. Quando o amor se torna intenso e profundo além de um certo ponto, o sexo começa a parecer apenas uma caricatura dele.  Acredite, no amor há coisas mais apaixonantes do que o sexo. Sexo é só o começo.

Se a sua esposa deu para o vizinho, espere que ela se arrependa e em seguida ame-a mais do que antes. É a mais velha e mais eficiente solução que existe. Está na Parábola do Filho Pródigo, mas as pessoas não querem aprender de jeito nenhum. O “direito” à fidelidade transformou todo mundo em gente importante que, na mais generosa das hipóteses, só perdoa por condescendência.  Perdoar SIGNIFICA redobrar o amor.

René Descartes tinha razão: Todos os nossos problemas provêm do fato de que antes de ser adultos fomos crianças. Cf. trauma de emergência da razão. Muitos homens e mulheres sentem que botar um par de cornos na sua cabeça é um crime de lesa-majestade. William Faulkner observa que muitos protestantes acreditam que sua raiva e seu desejo de vingança são a Ira de Deus. Sei de muitos católicos que embarcam nessa. Se algum dia eu matar um tirano, genocida, um assassino de inocentes, terei até alguma razão para achar que Deus me usou como instrumento da Sua ira. Mas até hoje, confesso, em nenhuma das vezes em que chutei um cu imaginei que o fizesse em nome de Deus. Se você perdoa a mulher adúltera mas nunca mais quer ver a cara dela nem pintada de ouro, é claro que não perdoou coisa nenhuma, apenas deu o nome de perdão a uma vingancinha. A vingancinha pode ser até justa, mas não é um perdão.

[Mônica Camatti Deus nos perdoa e portanto nos aceita como amigos novamente, como convidados para ir ao Céu conviver com Ele pelos séculos dos séculos. Nosso Senhor Jesus Cristo nos ensinou a pedir na oração do Pai Nosso: “Perdoai as nossas ofensas assim como perdoamos a quem nos tem ofendido”, e se nosso conceito de perdão se resume à exclusão da presença da pessoa perdoada, Deus fará assim mesmo conosco. Perdão de verdade é perdão ao modo do amor divino, e não existe outro. “Perdoar” e excluir a pessoa é vingancinha, birrinha de gente que não tem a mínima noção do quanto e como Deus nos perdoa, até os limites inimagináveis.  Olavo de Carvalho É isso, Mônica. ]

Quando Jesus perdoou a mulher adúltera, ela não havia cometido UM adultério, mas umas dúzias. Os romanos acreditavam que era própria do varão a conduta equilibrada, gentil, sóbria e disciplinada. Já as mulheres tinham a tendência natural — e portanto o direito — às crises de nervos, gritos e imprecações. Galeno conta que o pai dele era um primor de gentileza, mas a mãe às vezes ficava tão brava com as empregadas que chegava a mordê-las. Ninguém a chamou de louca por isso.

Pelo padrão romano, a Dilma Rousseff agiu com plena normalidade ao fazer guerra de cabides com a camareira. Sempre que faço algum mal, quero que me perdoem e me deem uma chance de consertar. Não quero tomar no cu em nome da Justiça. Você não é assim? Todo mundo quer ser cristão, com a ressalva de que esse negócio de perdoar é um saco. Perdoai as nossas ofensas, assim como nós torcemos os pescocinhos dos que nos ofenderam.

Fico impressionado com as pessoas que, cheias de convicção, repetem frases que elas mesmas não entendem, e acreditam que estão mesmo dizendo alguma coisa. Da minha parte, sou incapaz de não perceber que não entendo quando realmente não estou entendendo. Por exemplo, em muitos livros de mística leio que o santo, durante sua experiência de Deus, se desligou totalmente do mundo dos sentidos, e cinco linhas depois ele conta que a visão o fez chorar. Como chorar sem os sentidos? É um choro metafórico, puramente espiritual? Se é, em que consiste realmente a diferença? Quem lê essas coisas e passa batido sobre as dúvidas desse tipo não quis realmente entender nada.

De modo mais geral, como é possível ter QUALQUER emoção sem os sentidos corporais? Quando você depara com um mistério, a única reação sensata é a perplexidade, a busca angustiada de uma explicação mesmo impossível. Mas em geral o que noto é que as pessoas têm a reação oposta: “É um mistério, portanto não pensemos mais nisso. Basta crer.”
Isso é confundir a fé com psitacismo. A verdadeira fé busca desesperadamente o entendimento, mesmo sabendo que só o alcançará depois da morte.

O problema que coloquei no post anterior, do choro sem os sentidos, não pode ser resolvido por NENHUMA explicação teológica, já que se trata de um enigma da psicofisiologia humana e não de uma dificuldade teológica.

É possível que alguns santos em êxtase já tenham passado a uma esfera supratemporal na qual a fisiologia que vigora não é a da corporalidade terrestre, mas uma antecipação do “corpo de glória”. Sem fisiologia nenhuma é que a experiência se torna impossível. Dito de outro modo: podemos ver sem olhos terrestres, mas não SEM OLHO NENHUM. Tudo isso é um mistério maravilhoso.

Alguma idéia da fisiologia supraterrestre nos é dada pelas narrativas de pessoas que retornaram da morte. Como é possível ler essas coisas e não sentir a alma inundada por um oceano de perguntas? Max Weber achava que a essência da fé religiosa é abdicar do entendimento. Se é assim, não tenho fé nenhuma. Nem eu, nem Sto. Agostinho, nem Pascal. Outros acham que a fé á a busca de uma tranquilidade, de um reconforto, de um descanso da inteligência. Se é assim, a minha não está funcionando, porque só me cria problemas. Toda e qualquer doutrina ou teoria consiste em afirmações abstratas de ordem geral. Há algumas delas no Evangelho, mas, em essência, ele não se compõe delas e sim de uma NARRATIVA. Mas sou tão pervertido que não trocaria esses problemas por nenhuma temporada de descanso nas Bahamas.

Quando a Igreja diz que tal ou qual afirmação inexplicável é matéria de fé, o que ela está dizendo é que essa afirmação NÃO É UMA DOUTRINA, uma teoria, porque a primeira e mais essencial qualidade de uma teoria ou doutrina é ser uma explicação. Está dizendo que essa afirmação traduz um FATO, um dado bruto da realidade cuja explicação nos escapa. Cristo ressuscitou. Isso é uma explicação? Explicação uma pinóia. É um fato sem explicação. Basicamente, crer em qualquer sentença do Evangelho não é crer numa “doutrina”, mas num TESTEMUNHO. Testemunhos não nos trazem explicações, mas fatos. Toda e qualquer doutrina ou teoria consiste em afirmações abstratas de ordem geral. Há algumas delas no Evangelho, mas, em essência, ele não se compõe delas e sim de uma NARRATIVA.
De uma coisa estou convencido. A maioria dos que abandonam a Igreja não o faz por ter adquirido convicções racionalistas, cientificistas, marxistas etc., mas simplesmente por não agüentar por mais de alguns minutos um fato sem explicação pronta ou ao menos sem o vislumbre de uma explicação em futuro breve.
Não se trata de trocar a “fé” pela “razão”, mas de trocar os fatos por um sentimento de coerência — necessariamente falso, aliás. Uns querem o cristianismo sem a castidade; outros, sem o casamento indissolúvel; outros, sem a obrigação de ir à missa; outros, sem o clero; etc., etc. Tudo isso Deus perdoa. Mas um cristianismo sem a obrigação de perdoar, isso nem Deus aguenta.

*

Fabio L. Leite e Rodolpho Loreto são tipos raros que REALMENTE estudam Teologia. Dá gosto ler os seus posts. Eles me ensinam muita coisa.

 

  • Marcelo Naddeo

    Professor, sou seu aluno (apesar de um pouco disperso em função das minhas atribulações profissionais) e muitas vezes, ao ler seus textos e artigos, percebo em você uma inabalável (e sinceramente invejável) Fé na religião Católica. Sou Batizado, Crismado, vivo os Sacramentos da Igreja (em especial a Reconciliação e Eucaristia) já fui inclusive Ministro da Eucaristia numa paróquia perto da casa aqui em São Paulo, Li diversos livros sobre a Fé Católica. Procuro me orientar pela bibliografia disponível, mas sempre com um viés crítico pois não consigo absorver (talvez por dúvida ou ceticismo) determinados conceitos da nossa Fé. Tenho dentro de mim uma “Angustia” (entre aspas mesmo) e uma pergunta que fica martelando na minha cabeça e nos meus pensamentos: ” Será que estou professando a Verdadeira Fé?” Será que a Igreja Católica é a detentora da VERDADEIRA salvação eterna? Pensamento esse que compartilho humildemente aqui com você, pois o meu maior temor é chegar o dia do Juízo e eu estar de frente a Deus e perceber, naquele momento, que tudo aquilo que vivi (entre oração e ação), não era a verdadeira Fé. O que te pergunto de uma forma resumida e: Como o Sr. consegue ter tamanha certeza que a nossa Fé (Sou Católico!!) é de fato a Verdadeira? Seria possível chegar no final e, ao estar de frente com Deus, ele olhar para nós e falar “Estava errado na sua Fé, a Verdadeira Fé é a islamica, ou judaica, ou alguma outra vertente protestante. Enfim como o Sr. entende essa situação? alguma vez já chegou a duvidar da Fé Católica como a VERDADEIRA ? Um abraço fraternal de um admirador de suas obras.

    • Manoel M. Neto

      Há alguns dias ele contou que se passar mais de uma semana sem ler um livro sobre milagres ele perde a fé. E também já disse que é muito importante estudar os milagres, e que os milagres são uma escola de teologia (essas não foram as palavras exatas, mas como eu as lembro).

      Eu tenho passado por um período parecido com o seu. Percebi a importância de nutrir a fé com leituras do evangelho ou com livros como “A imitação de Cristo”, “O livro da confiança”, “Filotéia”, etc. Além disso eu considero indispensável rezar o terço todos os dias (e muito proveito você terá se rezar os 4 mistérios do rosário — o kit “Rosário oração da paz” da loja Lumen vem com um bom livrinho para meditação). Depois da Santa Missa o Rosário é a oração mais importante do católico. Durante as leituras ou na meditação do terço algumas passagens poderão tocar você; nessa hora é importante refletir nessa frase que te tocou, e ficar nela sem pressa de sair. Você deve recordar essa frase ao longo do dia, porque ela fortalecerá sua fé (o pe. Paulo Ricardo fala um pouco disso em “O que é um ‘ato de fé’?” e “Como fazer um ‘ato de fé’?”). Também é muito bom aumentar a devoção à Nossa Senhora, e pra isso você precisa conhecê-la melhor. Caso não tenha lido, tem o “Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem”. É bom também usar o escapulário e procurar conhecer essa devoção (https://youtu.be/HRRb2SpOMo8, https://www.youtube.com/watch?v=qTZ1yB8oD9k). E tem a “medalha milagrosa”, que o Olavo usa e já recomendou. Se na sua cidade tiver alguma igreja/capela dos Arautos do Evangelho recomendo visitá-los, porque eles sempre fazem cursos e preparações e são muito devotos de Nossa Senhora.

  • José Amaro

    Uma vez rezei o Rosário e de repente me vi ouvindo aquela música tema da lista de Schindler (por favor, não caiam na repetição “mecânica e servil da propaganda estalinista posta em circulação nos anos 30 do século 20”).
    Chorei como a muito não chorava. Choro com os sentidos.
    “Pesos pesados nos fios mais finos”: difícil imaginar que exista indivíduo que vive “perfeitamente bem” sem buscar a verdade da existência. “Buscar desesperadamente” aparenta ser o contrário. E sim, o desinteresse pelas picuinhas é o choro daquele santo.