1. Religião

Dons reais e inventados

24 de julho de 2017 - 5:41:33

Quando revejo mentalmente a minha juventude e boa parte da minha vida adulta, não consigo me recordar de um único dia em que não me ocupasse obstinadamente em buscar em mim mesmo toda sorte de defeitos e pecados e, quando não os encontrava, em inventá-los de maneira tão vívida e convincente que depois não havia meio de limpar minha imagem assim emporcalhada. Acredito que a maior parte dos seres humanos se dedica a essa atividade com a mesma obstinação e constância com que me entreguei a ela por tantos anos. Só tardiamente entendi que, se havia nela um tanto de escrupulosidade até louvável, se bem que histérica. havia também menosprezo diabólico pelos dons que Deus me havia concedido.

É que é difícil distinguir entre os dons reais que recebemos de Deus e aqueles, totalmente inventados, que a nossa vaidade nos atribui. Só a longa prática ensina isso.

Na adolescência, por exemplo, eu tentava me convencer de que era um primor de moralidade rigorosa, o que me permitia julgar os outros desprezíveis por qualquer bobagenzinha que cometessem. Só depois entendi que era tudo fingido, que no fundo pouquíssimas coisas me escandalizavam realmente, que na verdade eu estava cagando e andando para o que os outros fizessem ou deixassem de fazer.

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Para quem ficou mais doente na infância do que jamais voltaria a ficar na idade adulta, a velhice não é problema nenhum. A única diferença é que você bebe mais líquidos e mija mais do que antes.

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Minha imagem do inferno — a única coisa que temo na vida — é uma fila quilométrica na qual, quando chega a sua vez, lhe informam que você entrou na fila errada; e essa porra não acaba nunca.

  • tabajara_music

    Semelhante à farsa dos “conselhos populares” que a gerentona pretendia implantar aqui.

  • Paulão

    Semelhante, também, aos “orçamentos participativos” implantados pelos governos do partido-quadrilha, onde só os seus militantes tinham voz;

  • Hattori Hanzo

    …em resumo este moleque é também um grande FDP.

  • Concordo plenamente em relação a fila quilométrica. Eu fujo de filas como diabo foge da cruz. Sou do tipo que prefere pagar juros do que enfrentar uma fila.

  • Ricardo Jafe Carelli Fontes

    OS PEQUENOS NÚMEROS, OS GRUPOS PEQUENOS, AS MENORES TORCIDAS, E A PRÓPRIA EXCELÊNCIA, NÃO PERTENCEM AOS GRANDES NÚMEROS. NEM ÀS MULTIDÕES. CRISTO PERDEU A ELEIÇÃO PARA BARRABÁS, CONFORME RELATOS CIENTÍFICOS…LARGO É O CAMINHO QUE CONDUZ À PERDIÇÃO. É UM ALÍVIO DESCOBRIR QUE PEGAMOS A FILA ERRADA – E QUE ALÍVIO !!!! HITLER ERA DO POVÃO E, COMO TAL, FOI ELEITO ! UAU ! AS MULTIDÕES ESTÃO SEMPRE ENGANADAS, COMO A HISTÓRIA PROVA E COMPROVA……VIVA O NÚMERO PEQUENO. VIVA ISRAEL, QUE É INSIGNIFICANTE – E, NO ENTANTO, É UM DOS PILARES DO OCIDENTE. ;;;; (VALEU, OLAVÃO !)….CONGRATS !

  • Renan Faria

    Fazendo um exame de consciência eu vi poucas virtudes e raríssimas boas ações. Mas por um outro lado, Deus me deu muitos dons e que estou descobrindo como melhor utilizá-los.

    Eu tenho 29 anos e fico muito mais doente do que quando era criança ou mais jovem.

    Ri muito sobre a visão do inferno como uma fila interminável que dá em outra fila.

    • Mauricio Ricardo Pinheiro

      Parece repartição pública….
      Alias a imagem me lembrou outra tão icônica quanto. Um quadrinho de Uderzo, Asterix. Os Dez Trabalhos de Asterix.

  • Ewerton Caetano

    O Inferno é o triunfo da vontade da criatura livre contra a vontade de Deus, e a prova mais impressionante do quanto Ele leva a sério a liberdade criada.