1. Religião

Enigmas e perplexidades da vida católica

28 de maio de 2017 - 18:24:15

Não discuto a doutrina da Igreja.Tomo-a como verdade geral e só questiono situações concretas. É o máximo que o meu QI permite. Da instrução católica que recebi na infância, só restaram na minha memória muitas lágrimas de comoção ante os milagres, a caridade, o perdão, a Graça, a beleza. Nem uma só lágrima de tristeza. Ah, como eu gostaria de que todos os meninos do mundo tivessem tido experiência igual! Nos momentos mais deprimentes e conturbados da minha infância, a Igreja era sempre o abrigo, a ilha da bem-aventurança, a porta do Céu. Não mentirei se disser que, em cinco anos de convivência com os Padres Mário Rimondi, Mário Dodi e Pedro Pelotto na Igreja de Nossa Senhora da Paz em São Paulo, não levei uma só bronca, não ouvi uma palavra amarga sequer.

NENHUMA Graça é um direito. O Catecismo da Doutrina Católica (1647,1648) reconhece que a fidelidade conjugal é uma conquista difícil, que só se torna possível pela Graça. A distância entre esse conceito e a noção jurídica do “direito” é IMENSURÁVEL. Juridicamente, a fidelidade conjugal é apenas ausência de adultério, ao menos comprovado. O amor não tem como entrar nesse conceito. No casamento cristão, ao contrário, a fidelidade é o efeito — ou obra — de um amor inflexível e constante, imitação do amor divino. É só na sua exterioridade mais grosseira que essas duas noções podem parecer a mesma. O que afirmo categoricamente é que a obrigação da fidelidade no puro casamento civil sem suporte religioso é uma carga pesada demais para qualquer ser humano real. O Código Civil de Napoleão não é a Bíblia e o Estado não fornece graças divinas. Eu SEI o que é a graça divina como suporte do amor humano. E não sei por ter lido, e sim por tê-la recebido. A diferença que isso faz é imensurável, para usar a palavra mais modesta que me ocorre. Cada vez que digo à Roxane “Eu vou amar você para sempre”, não estou querendo dizer que sou o bam-bam-bam das virtudes, o campeão da fidelidade matrimonial. Soaria imensamente ridículo. Estou dizendo apenas: “Deus não deixará que o nosso amor acabe.” Isso é tudo.

Existem milhares de livros, debates e estudos em revistas científicas e teológicas sobre o celibato clerical, o qual não deveria, em princípio, ser um grande problema já que sua adoção deriva de uma livre decisão individual.
Em comparação, é QUASE IMPOSSÍVEL encontrar estudos sobre pessoas casadas que, abandonadas pelos seus cônjuges (ou separadas deles por motivo grave), são FORÇADAS a uma vida de celibato que não escolheram nem escolheriam jamais por vontade própria. O número dessas pessoas não é pequeno.
É certo que as controvérsias sobre o celibato clerical são alimentadas por inimigos da Igreja, constituindo, portanto, uma característica guerra cultural, e sendo esse o motivo mais óbvio da sua proliferação.
Mas por quê o silêncio geral — mesmo dos anticatólicos mais inflamados — sobre o problema incomparavelmente mais grave do celibato forçado?
Em vez de me fornecer a sua gentil opinião — que valeria tanto quanto a minha, se alguma eu tivesse, que aliás não tenho nenhuma –, peço que o leitor me ajude a encontrar estudos sérios e fundamentados sobre o problema, não do ponto de vista teológico-doutrinal, onde não há controvérsia alguma a respeito, mas do ponto de vista psicológico, sociológico e psicopedagógico.

Os confessores do Rei Luís XIV perdoaram-lhe algumas centenas de adultérios e nem por isso deixaram de chamá-lo de “Sua Majestade Cristianíssima”.
A fusão do casamento religioso com o casamento civil, desde o Código Napoleão, tornou impossível qualquer fenômeno análogo. O adúltero tem contra si não somente as penas do inferno, das quais pode se livrar mediante a confissão sacramental, mas uma infinidade de punições jurídicas, sociais, econômicas e psicológicas das quais não pode se livrar de maneira alguma, exceto se tiver muito dinheiro e for perfeitamente amoral.
O que me pergunto — e não sei responder — é: Quanto do espírito do Código Napoleão se infiltrou sutilmente nos julgamentos da massa católica sobre fidelidade e adultério? Nunca encontrei, a respeito, um estudo histórico que satisfizesse à minha curiosidade. Como vocês vêem, não costumo fugir de problemas para os quais não tenho solução, quando não me parecem logicamente insolúveis em si mesmos. Jesus disse: “Meu jugo é suave”. Podemos dizer o mesmo do jugo eclesiástico, QUANDO ALIADO AO ESTADO LEIGO MODERNO?
Não creio que seja honesto, da parte de um católico sincero intelectualizado, fugir desse problema, nem fazer de conta que está perfeitamente confortável diante dessa situação.

Sempre reconheci e sem a menor dificuldade reconheço que sou um bosta, mas faço um esforço sincero para viver a vida católica, e, decididamente, não considero que faça parte dela fingir que não vejo aquilo que vejo. É claro, o Brasil está repleto de almas puríssimas que resolvem tudo mediante uma simples consulta ao Código de Direito Canônico, sobretudo quando não chegam sequer a entender a formulação do problema.
A vida católica real é cheia de enigmas, perplexidades e sofrimentos morais sem os quais ela se reduziria à obediência mecânica, que é o ideal de tantos brasileirinhos devotos. Conheço muitos católicos tão lindos, mas tão lindos, que jamais consentiriam em descer das alturas sublimes da sua fé inabalável para perguntar: “Pai, por que me abandonaste?” A minha fé é abalável. Dou graças a Deus de que ela não desapareça.

  • José Amaro

    Desconfio que o espírito do código de Napoleão foi mais uma serpente não esmagada, mas o que é essa aliança do jugo eclesiástico com o Estado Leigo Moderno? Uma coisa é certa, como escreveu o Luiz Gonzaga de Carvalho Neto: podemos abandonar a ilusão de que “nosso convívio com Deus está no mesmo nível da relação de Deus com Moisés” e este é apenas o primeiro pedido da oração O Pai Nosso.

  • gustavo druziki

    São mistérios os quais eu gostaria muito de compreender. Tudo o que posso fazer no momento é continuar lendo sobre eles. Deles, nada sei.

  • Fábio de Oliveira Schiavinoto

    Gostaria de saber por que um site que comporta artigos e informações tão importantes, elaborados por gente tão inteligente, contém tantos erros ortográficos. Nesse artigo, o professor Olavo usa errado o “porque” (“Mas por quê o silêncio geral — mesmo dos anticatólicos mais inflamados —
    sobre o problema incomparavelmente mais grave do celibato forçado?”). Por que “por quê”?. E também por que o “chapeuzinho” no verbo “ver”, forma do verbo ver conjugado na 3.ª pessoa do plural do presente do indicativo?

    • Thiago Messias

      Afss… então vai ler a Fôia.

  • Fábio de Oliveira Schiavinoto

    Gostaria de saber por que um site que comporta artigos e informações tão
    importantes, elaborados por gente tão inteligente, contém tantos erros
    sintáticos e ortográficos. Nesse artigo, o professor Olavo usa errado o “porque”
    (“Mas por quê o silêncio geral — mesmo dos anticatólicos mais inflamados

    sobre o problema incomparavelmente mais grave do celibato
    forçado?”). Por que “por quê”?. E também por que o “chapeuzinho” no
    verbo “ver” conjugado na 3.ª pessoa do plural do
    presente do indicativo?