1. Religião

Perdoar os pecadores

7 de julho de 2017 - 23:32:15

Nesta porra de país não se pode falar de perdão sem que apareçam mil zelotes dizendo “Sim, mas…”

Verdade óbvia que muitos não podem nem ouvir sem ter chiliques: Jesus NÃO VEIO moralizar o mundo. Veio perdoar os pecadores.

O medo de corromper o próximo por excesso de bondade é a mais linda desculpa que já se inventou para a mesquinharia,

“O homem deve ter a coragem de ser bom quando tudo em volta o convida a ser mau.” (Lipot Szondi)

Tenho horror de chamar o cristianismo de “religião”. Religiões existem muitas. Deus fisicamente presente no mundo é um só, e acreditar ou não acreditar nele não muda em nada a realidade histórica da Sua presença.

À intransigência feroz que devemos colocar na defesa de valores e princípios que são superiores a nós corresponde, simetricamente, a presteza que devemos ter em perdoar, sem discussão nem nhem-nhem-nhem, toda ofensa pessoal que recebemos.

Se você não aprendeu a arte do perdão, minha filha, não adianta nada botar véu e encompridar o vestido. É melhor perdoar de minissaia do que acusar vestida de freira.

Sempre que recusar o perdão, vá à Igreja e confesse.

Posso ser um sonso, um insensível, mas, em setenta anos de vida, nunca reparei se uma mulher estava ou não decentemente vestida. Aliás nem reparei se estava vestida. Quase que obsessivamente, vejo rostos e olhares e nem sei do resto. A não ser, é claro, que a dona fique pelada com o propósito explícito de me agradar.

Sempre gostei, no entanto, de mulheres humildes e modestas. As grandes sedutoras me parecem irresistivelmente cômicas.

O cúmulo da indecência não está na vestimenta, nem nas palavras, nem nos gestos, está em ficar reparando em detalhes que a pessoa mesma não está nos mostrando de vontade própria. Respeitar o FOCO do interlocutor é tudo.

A Igreja Católica ensina coisas preciosas sobre a COBIÇA DO OLHAR.

Tudo é uma questão de foco: fazer com que o foco da sua atenção não vá além do foco da mensagem recebida.

Uma dona pode sair à rua com a roupa mais provocante do mundo, mas isso não dá a homem nenhum o direito de pressupor que a provocação se destina a ele em pessoa. A não ser que ela dê um sinal claro de que é isso.

A piriguetice não está na vestimenta. Está no comportamento intencional.

Não vi ainda nenhuma mulher peluda, mas dizem que está na moda elas não rasparem mais as pernas. PQP, isso é coisa dos anos 60, que a turma tirou do museu e acha que é novidade.

Se vocês acompanharam os raciocínios finais do filme “O Jardim das Aflições”, não terão dificuldade de entender o que vou explicar em seguida. Se enfatizo tanto a importância do perdão, não é só porque ele é o centro e o topo da revelação cristã, mas porque meditei personalizadamente o assunto desde um ponto de vista não religioso ou teológico, mas metafísico, e adotei como tese formal da minha filosofia a convicção de que ele é uma das chaves essenciais da estrutura mesma da realidade como um todo. No filme — assim como em muitas aulas –, expliquei que não há um intermediário entre o ser e o nada: o que quer que tenha entrado na esfera do ser por uma fração infinitesimal de segundo não pode nunca mais retornar ao nada, porque nunca esteve nele e, ao contrário, pertenceu sempre à esfera do ser. Se tentamos conceber o transcurso do tempo como estrutura total da possibilidade, entendemos o que é a eternidade, no sentido de Boécio: a posse atual e simultânea de todos os momentos. Logo, o que quer que aconteça na esfera temporal está contido na eternidade de uma vez para sempre. Isso é a irrevogabilidade absoluta do acontecer. Ao nada, nada retorna, porque do nada, nada proveio. Ora, em toda a esfera do acontecer universal, desde as partículas subatômicas até a totalidade das galáxias, e atravessando mesmo todos os mundos supracorpóreos e espirituais que possam existir, só há UM tipo de fato que, uma vez ocorrido no tempo, pode ser suprimido da eternidade. São os nossos pecados. O perdão sacramental apaga o pecado do registro do ser. O perdão divino não é somente um castigo suspenso, mas uma anulação do fato, um DESACONTECER total e definitivo. Correlato da criação “ex nihilo”, o perdão devolve ao nada o que nunca esteve no nada. O perdão é obra da liberdade divina e, nesse sentido, transcende a estrutura inteira da possibilidade universal. Quem quer que tenha a oportunidade de participar desse milagre, sob qualquer maneira que seja, deve aproveitá-la ao máximo, porque nada, nada, nada deste mundo lhe dará, na medida das forças humanas, compreensão mais luminosa do mistério da existência.